ESG

Assista abaixo entrevista sobre os desafios da descarbonização no setor do aço.

 

 

Pra começar a entender a questão ambiental no setor de produção do aço, explica pra gente como o aço é produzido.

A produção do aço é realizada basicamente por meio de duas rotas produtivas. A rota primária, também conhecida como integrada, utiliza como principal matéria prima o minério de ferro que é transformado no produto intermediário que conhecemos como ferro gusa nos altos fornos. Nestes altos fornos é necessária a presença de um agente redutor, geralmente a base de carbono, que reage com o óxido de ferro que compõe o minério, removendo o oxigênio do minério, produzindo ferro gusa e também CO2. O ferro gusa é então encaminhado para a aciaria, onde recebe adição de ligas metálicas e outros insumos para a produção do aço com a qualidade necessária para cada tipo de uso.

A outra rota produtiva é a secundária, conhecida como elétrica ou mini mil, onde a principal matéria prima é a sucata de ferro. O aço é o material mais reciclado do mundo. Tem duas características muito interessantes que viabilizam essa condição. As suas características magnéticas, auxiliam na segregação da sucata facilitando sua reciclagem. Outro ponto é que o aço é infinitamente reciclável, não perdendo suas características ao ser reciclado. A bicicleta de hoje pode ser o talher de amanhã, que um dia será parte de um carro. Nessa rota produtiva, a sucata é fundida em fornos elétricos na aciaria, onde tem sua composição ajustada para as características necessárias para cada tipo de uso do aço.

Hoje, no mundo, a produção de aço é feita cerca de 70% a minério e 30% sucata.

Mas seria possível produzir todo o aço com sucata?

O ciclo médio do aço retornar como sucata leva em torno de 40 anos. Isso significa que apenas 40 anos após sua produção, aquele aço estaria disponível para ser reciclado. Esse é um tempo médio. A embalagem de aço, pode demorar apenas alguns meses para se tornar sucata, mas a estrutura de aço de um prédio ou de uma ponte pode permanecer por mais de 100 anos naquela função antes de se tornar sucata. Por isso, regiões que produziram mais aço no passado, tem também mais sucata disponível no presente para a rota secundária. Dessa forma a rota a minério permanecerá relevante para a demanda crescente de aço da sociedade.

Por que a produção do aço é tão relevante para a questão das mudanças climáticas?

O aço tem um papel essencial na descarbonização do planeta. Está presente nas instalações de energia renovável, como as usinas solares e eólicas, nos carros elétricos, trens, na infraestrutura de produção e distribuição e combustíveis renováveis. Mas fato é que a indústria de produção de ferro e aço emite atualmente entre 7% a 9 % das emissões globais de CO2 e por esse motivo tem responsabilidade na redução das suas emissões.

E como a indústria do aço está se preparando para a descarbonização?

O setor é conhecido com um dos que seriam “hard to abate”, não só pela quantidade das emissões de CO2 sob sua responsabilidade, mas pela ausência de tecnologias disponíveis para a transição de baixo carbono. Em estudo emitido em 2020, o International Energy Agency, o IEA, umas das fontes mais reconhecidas na área energética, identificou que em um cenário de desenvolvimento sustentável o setor de produção de ferro e aço poderia reduzir cerca de 50% das suas emissões até 2050 em relação a 2019. No mesmo caminho, a intensidade das emissões da produção de aço bruto poderia cair 58%.

IEA e o World Steel Association acreditam que a transição de baixo carbono do setor deve ter como ações de curto prazo a busca pela eficiência energética e operacional. Outra oportunidade de curto / médio prazo é o aumento da utilização de sucata na produção do aço. A rota primária, que utiliza minério e carvão mineral, tem uma intensidade de emissões de gases de efeito estufa que pode ser cerca de 7 vezes superior se comparada à rota secundária, que utiliza sucata. A questão é que conforme conversamos em momento anterior, a maior produção de aço via reciclagem da sucata está condicionada à disponibilidade dessa matéria prima no mercado. Além disso, o aumento da oferta de sucata depende do aumento do consumo per capita de aço.

O setor compreende que essas ações de curto e médio prazo não serão suficientes para a descarbonização profunda. Tecnologias disruptivas de utilização do hidrogênio como agente redutor do minério, em substituição ao carvão de origem mineral, produção a base de eletrólise ou a implantação de “Carbon Capture and Storage” ou “Carbon Capture and Use” precisam ser desenvolvidas e tornarem-se viáveis não só tecnologicamente, mas, também com uma ótica financeira além de infraestrutura como, por exemplo, disponibilidade de energia de fonte renovável.

Nem todas as regiões terão as mesmas tecnologias disruptivas viáveis, dependendo da disponibilidade de gás natural, hidrogênio, estrutura de captura de carbono de cada país e até regionalmente. Outro ponto relevante identificado no estudo do IEA é a estimativa de um custo adicional de produção entre 10% e 50% se comparadas estas tecnologias disruptivas em comparação com o que temos atualmente.

A transformação da indústria de produção do aço será gradual, sendo acelerada de acordo com as políticas públicas que viabilizariam infraestrutura e subsídios necessários para esta transição. Outra oportunidade de aceleração de descarbonização estaria relacionado ao aumento da demanda de aço de baixa intensidade de carbono pelo mercado consumidor disposto a absorver um custo adicional para este tipo de produto.

E quais são os valores de emissões de CO2 da Gerdau?

A Gerdau emite cerca de metade da média global de CO2 do setor: as emissões ficaram em 0,93 tonelada de CO2 por tonelada de aço produzido, dados de 2020, aproximadamente metade da média global da indústria do aço (1,83 tCO2e/t), segundo dados da Associação Mundial do Aço (worldsteel).

Contribui para a Gerdau ter esse resultado uma matriz de produção que tem a reciclagem de sucata ferrosa como a principal matéria-prima e o uso de carvão vegetal de florestas plantadas em substituição de outras fontes de carbono de origem fóssil.

Você pode me explicar melhor como essa intensidade de emissão de CO2 do produto da Gerdau é tão diferenciada?

Na Gerdau produzimos aço de três maneiras diferentes: por meio de sucata (processo secundário) e por meio do minério (rota primária), mas utilizando duas fontes de carbono diferentes.

Somos a maior recicladora de sucata ferrosa da América Latina. A Gerdau recicla mais de 11 milhões de toneladas de sucata em suas usinas no Brasil e nas Américas. Assim, 73% do aço produzido pela Gerdau tem a sucata ferrosa como principal matéria-prima, e conseguimos efeitos positivos na mitigação das mudanças climáticas, poupando recursos naturais e reduzindo o consumo de energia e emissão de gases de efeito estufa. Cada tonelada de sucata reciclada evita a emissão de 1,5 tonelada de CO2 no processo de produção de aço. Importante comparar que este percentual é o oposto da produção mundial de aço, que tem como a principal matéria prima o minério em 70% da produção global.

 

Além disso, em 3 unidades produtivas do Brasil, utilizamos o biorredutor como substituto de carbono fóssil, que evita as emissões de CO2 mesmo sendo considerada uma rota primária de produção de aço (a que parte de minérios), isso porque o biorredutor é uma fonte renovável de carbono.  Explicando melhor, o biorredutor é o carvão vegetal produzido por meio de florestas plantadas. A Gerdau possui 310 mil hectares de área de reflorestamento, sendo 90 mil hectares destinados à conservação de biodiversidade. Além disso, as florestas energéticas de reflorestamento da Gerdau, reduzem a pressão do desmatamento sobre as florestas nativas, contribuindo para a adequada utilização de terras degradadas e respeitando os mais modernos conceitos de cultivo mínimo do solo. Aliadas às melhores práticas de conservação dos recursos, elas garantem uma produção sustentável e ainda prestam outro expressivo serviço: remoção e estoques de carbono. A escala das remoções geradas por incrementos de estoques florestais e a capacidade de manutenção por prazos longos fazem com que as florestas energéticas de reflorestamento tenham um potencial de contribuição no combate às mudanças do clima, sobretudo ao longo de algumas décadas.

A rota integrada, que utiliza carvão de origem fóssil, reaproveita cerca de 92% dos gases gerados no processo de fabricação gerando sua própria energia, reduzindo as emissões de gases de efeito estufa em seu processo como um todo.

Resumindo, pelo fato de utilizar carbono de origem renovável florestal, pelo uso de sucata e pelo reaproveitamento dos gases de processo, é justificada a intensidade carbônica da Gerdau estar abaixo da média global da siderurgia.

E como a Gerdau está se planejando e se preparando para a descarbonização das suas operações?

Na Gerdau, o Comitê de Estratégia e Sustentabilidade tem o papel de apoiar o Conselho de Administração em relação a tendências da indústria que podem impactar os negócios a curto, médio e longo prazos. Ao debater a alocação de capital e definir planos de investimentos, o Comitê de Estratégia e Sustentabilidade considera não apenas os aspectos produtivos e de retorno financeiro, mas também os fatores ESG como importantes para a tomada de decisões. Dito de outra forma, os temas ambientais, sociais e de governança têm hoje peso estratégico relevante no mais alto nível de decisão da companhia.

A empresa possui uma Política de Sustentabilidade e um Sistema de Gestão Ambiental que reforçam o comprometimento com a geração de valor para seus stakeholders e estão alinhados às diretrizes regulatórias e de melhores práticas globais. Desse modo, questões relacionadas à temática ambiental da indústria do aço passaram a ser objeto mais frequente de reuniões do Conselho de Administração da Gerdau e seus comitês.

Além disso, cada vez mais, a agenda ESG – com o componente ambiental tendo grande peso na sua aplicação a atividades industriais – passa a ser vista como fator crucial a ser levado em conta no debate, no planejamento e na tomada de decisões no dia a dia da empresa. Em 2020, foram investidos R$ 417 milhões na melhoria de práticas de ecoeficiência e em tecnologias para a proteção do ar, da água e do solo.

Paralelamente, a Gerdau passou a reportar, em 2020, suas operações no Brasil ao Carbon Disclosure Project (CDP), uma ONG internacional que incentiva empresas, cidades e outras organizações públicas ou corporativas a reportarem dados sobre sua performance ambiental, a partir dos quais prepara análises de riscos, oportunidades e impactos ambientas. A nota da Gerdau foi B-, que é a faixa das empresas que realizam uma gestão coordenada em relação à mudança climática, reforçando nossa transparência e compromisso. Essa pontuação foi superior à média regional da América do Sul (D) e do setor de metais e metalurgia (D). Como destaque positivo, temos a nota A, relacionada às nossas emissões de gases de efeito estufa (GEE) globais, que são inferiores às médias globais. Outra nota de destaque está relacionada às iniciativas de redução de GEE, que contaram com cases detalhados de eficiência energética na nossa unidade operacional de Ouro Branco (MG).

Reforçando seu compromisso de transparência com seus públicos de interesse, a Gerdau publicou seu Relatório Anual 2020 com informações sobre suas iniciativas de sustentabilidade, estratégia de negócios e desempenho financeiro baseadas, pela segunda vez, nas normas da Global Reporting Initiative (GRI). No material estão reunidos dezenas de indicadores, entre conteúdo geral e desempenhos específicos, em uma publicação separada, estruturada para facilitar a busca pelos principais indicadores ESG. Nesse ciclo, apresentamos também a correlação entre os indicados do Sustainability Accounting Standards Board (SASB).

Ressalto também que foram incluídas metas de desempenho de indicadores ESG no Plano de Incentivo de Longo Prazo (ILP) para a liderança sênior da organização. Com validade a partir de 2021, a norma estipula que cerca de 20% do valor dos bônus de longo prazo incorporados à remuneração variável dos executivos estarão condicionados ao cumprimento de metas ambientais e sociais, que incluem questões relacionadas à gestão climática. Entendemos que essa é uma forma de darmos visibilidade ao tema em todos os níveis da Companhia.

Existem exemplos práticos de descarbonização atual?

A empresa tem investido na digitalização da gestão de energia e em softwares de modelamento matemático, garantindo o controle e monitoramento online de todos os consumos, a previsão do consumo energético de acordo com o planejamento de produção e os demais parâmetros de processos. Todos os esforços na gestão de energia, em projetos de melhoria contínua, restabelecimento de função e mudanças no mix de combustíveis permitiram, na unidade de Ouro Branco (MG), uma redução de 89.000 tCO2e nas emissões de gases do efeito estufa em 2020, por exemplo.

Outra iniciativa é que, a partir de 2021, uma usina da Gerdau no norte do Texas, nos Estados Unidos, estará funcionando com a utilização de energia solar. O ambicioso projeto anunciado em meados de 2020, é fruto de um acordo de compra de energia, com a duração de 20 anos, entre a empresa de energia solar 174 Global Power e a Gerdau na América do Norte. A 174 Global Power vai construir uma instalação de geração de eletricidade a partir da energia solar de 80 megawatts, com mais de 230 mil painéis solares, ao lado da fábrica da Gerdau na cidade texana de Midlothian. A planta será conectada diretamente à usina da Gerdau, que vai pagar à 174 pela energia consumida. O projeto compensará as emissões médias de mais de 13 mil residências do Texas.

Já no Brasil, em parceria com a Shell, a Gerdau anunciou este ano uma joint venture de energia solar no Estado de MG. Com capacidade aproximada de 200MWp, o parque solar fornecerá parte da energia limpa para unidades de produção de aço da empresa, em linha com a busca pela autossuficiência energética e com a estratégia de entrada no segmento de geração de energia renovável.

Mas e as metas da Gerdau? Como estão sendo planejadas e quando serão divulgadas?

Estamos assumindo um compromisso de meta de redução de emissões alinhado aos acordos e protocolos internacionais e que esteja baseado em tecnologias economicamente viáveis. Adotamos a metodologia das curvas MACC, Marginal Abatement Cost Curve, e MEAC, Marginal Energy Abatment Cost Curve, para estruturar a meta de redução de emissões de curto, médio e longo prazos. O objetivo desse estudo é conhecer as tecnologias disponíveis e em desenvolvimento, que são pertinentes ao processo siderúrgico em operação na Gerdau, analisar quais são elegíveis, priorizar e planejar os investimentos para divulgar os dados.

A definição da meta da Gerdau envolve o conhecimento do que é possível ser implementado, com base na disponibilidade e viabilidade. Um dos motivos da indústria do aço ser considerada de difícil descarbonização é o fato de que é necessário desenvolver tecnologias ainda em fase inicial, além de políticas públicas que viabilizem essas tecnologias. Como temos desafios de longo prazo em todo setor, estamos reforçando a contribuição das reduções de emissões de gases de efeito estufa da Gerdau de médio prazo em nossa base de produção à sucata e biomassa, além de iniciativas de eficiência energética e operacional. Nosso objetivo é continuar crescendo em nossa produção de aço, material essencial nas iniciativas de descarbonização do planeta, nos mantendo em uma condição de destaque e com metas de redução em intensidade de carbono, ou seja, vamos ser ainda mais eficientes na relação de emissão de CO2 e produção de aço.

Última atualização: 7 fevereiro, 2022
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